No dia a dia da medicina veterinária, os exames laboratoriais são ferramentas essenciais para apoiar o diagnóstico clínico, orientar terapias e monitorar a saúde de animais de companhia, de produção e até da vida silvestre. No entanto, muitas vezes, a atenção dos profissionais se concentra apenas nas fases analítica e pós-analítica do processo diagnóstico, enquanto a etapa pré-analítica, que envolve desde a coleta até o transporte da amostra, pode ser a maior fonte de erros.
O peso dos erros pré-analíticos
Estudos demonstram que até 77% dos erros laboratoriais têm origem na fase pré-analítica, incluindo falhas na coleta, manuseio, transporte e armazenamento das amostras (Hooijberg et al., 2012). Em alguns casos, esses erros podem levar a resultados falsamente alterados, comprometendo a confiabilidade do exame e conduzindo a diagnósticos equivocados.
Principais fatores de risco
De acordo com a literatura, os fatores pré-analíticos mais citados incluem:
- Coleta inadequada: escolha incorreta do tubo, anticoagulante ou técnica de punção;
- Manuseio e armazenamento: tempo excessivo até o processamento, temperaturas inadequadas, hemólise ou lipemia;
- Transporte: más condições de embalagem ou atraso na entrega ao laboratório;
- Fatores relacionados ao animal: jejum, estresse, ritmo circadiano e até o local de coleta;
- Contaminações: especialmente críticas em exames como PCR
Impactos na prática veterinária
Os erros pré-analíticos não são apenas estatísticas: eles têm consequências práticas graves. Podem gerar interpretações equivocadas, conclusões clínicas inadequadas e até erros de manejo (Humann-Ziehank & Ganter, 2012).
Como reduzir os erros?
A boa notícia é que existem medidas comprovadamente eficazes para minimizar falhas:
- Padronização de protocolos (POPs) e uso de guias de qualidade;
- Treinamento contínuo de equipes em coleta e manipulação de amostras;
- Protocolos e documentação rigorosa;
- Automação de processos para reduzir erros humanos;
- Ambientes laboratoriais organizados e com controle de contaminação
Conclusão
A fase pré-analítica é, sem dúvida, o ponto mais crítico no processo diagnóstico em medicina veterinária. A atenção cuidadosa a detalhes simples, como a forma de coleta, o transporte e a conservação da amostra, pode significar a diferença entre um diagnóstico preciso e um resultado enganoso.
Investir em treinamento, padronização e boas práticas laboratoriais é investir diretamente na saúde e bem-estar animal.
Referências
- Hooijberg, E., Leidinger, E., & Freeman, K. (2012). An Error Management System in a Veterinary Clinical Laboratory. Journal of Veterinary Diagnostic Investigation. https://doi.org/10.1177/1040638712441782
- Riley, J. (1992). Clinical Pathology: Preanalytical Variation in Preclinical Safety Assessment Studies. Toxicologic Pathology. https://doi.org/10.1177/0192623392020003206
- Humann-Ziehank, E., & Ganter, M. (2012). Pre-Analytical Factors Affecting the Results of Laboratory Blood Analyses in Farm Animal Veterinary Diagnostics. Animal. https://doi.org/10.1017/S1751731111002679
- Oliveira, E., Martins, D. B., Mota, A. C., Oliveira, T., Silva, S. L., & Queiróz, T. D. (2016). Preanalytical Factors in the Clinical Pathology of Wildlife. Clínica Veterinária. https://doi.org/10.46958/rcv.2016.xxi.n.125.p.40-54
- Toohey-Kurth, K., Mulrooney, D., Hinkley, S., Killian, M. L., Pedersen, J., Bounpheng, M., Pogranichniy, R., et al. (2020). Best Practices for Performance of Real-Time PCR Assays in Veterinary Diagnostic Laboratories. Journal of Veterinary Diagnostic Investigation. https://doi.org/10.1177/1040638720962076
- Gunn-Christie, R., Flatland, B., Friedrichs, K., Szladovits, K., Harr, K., Ruotsalo, K., Knoll, J., Wamsley, H. L., & Freeman, K. (2012). ASVCP Quality Assurance Guidelines: Control of Preanalytical, Analytical, and Postanalytical Factors for Urinalysis, Cytology, and Clinical Chemistry in Veterinary Laboratories. Veterinary Clinical Pathology. https://doi.org/10.1111/j.1939-165X.2012.00412.x