O hiperadrenocorticismo (HAC), também conhecido como síndrome de Cushing, é uma endocrinopatia frequentemente diagnosticada em cães de meia-idade a idosos. Essa condição é caracterizada pela produção excessiva e crônica de cortisol, que pode ocorrer devido a alterações na hipófise (forma pituitário-dependente), tumores nas glândulas adrenais ou ainda pelo uso prolongado de glicocorticoides exógenos. O diagnóstico do HAC pode ser desafiador, pois muitos dos sinais clínicos são inespecíficos e comuns a diversas doenças sistêmicas. Entre os achados mais frequentes estão:
• poliúria
• polidipsia
• polifagia
• aumento abdominal (“abdômen pendular”)
• alterações dermatológicas como alopecia bilateral e pele fina
• infecções cutâneas recorrentes
Devido à baixa especificidade desses sinais, testes hormonais são fundamentais para confirmar a suspeita clínica.
1. Fisiologia do cortisol e o eixo hipotálamo–hipófise–adrenal
O cortisol é o principal glicocorticoide endógeno produzido pelo córtex adrenal. Em animais saudáveis, sua secreção é
regulada pelo eixo hipotálamo–hipófise–adrenal (HHA).
O processo ocorre da seguinte forma:
1. O hipotálamo libera CRH (hormônio liberador de corticotropina)
2. A hipófise secreta ACTH
3. O ACTH estimula as glândulas adrenais a produzirem cortisol
Quando os níveis de cortisol aumentam, ocorre feedback negativo, reduzindo a liberação de CRH e ACTH e mantendo o equilíbrio hormonal.
Nos cães com hiperadrenocorticismo, esse mecanismo regulatório encontra-se comprometido, resultando em produção persistente ou inadequadamente regulada de cortisol.
A simples dosagem basal de cortisol raramente é suficiente para diagnóstico, pois:
• níveis normais podem ocorrer em cães com HAC
• níveis elevados podem ocorrer apenas por estresse ou doença sistêmica
Por esse motivo, utilizam-se testes dinâmicos, sendo o mais sensível o Teste de Supressão com Baixa Dose de Dexametasona (LDDST).
2. Princípio do teste de supressão com dexametasona
O LDDST avalia a capacidade de resposta do eixo hipotálamo–hipófise–adrenal ao feedback negativo.
A dexametasona (0,01 mg/kg IV) é um glicocorticoide sintético potente, cerca de 6x mais potente que a prednisolona, que
suprime a liberação de ACTH pela hipófise. Como consequência, espera-se redução da produção de cortisol pelas
adrenais. Assim, o comportamento do cortisol após a administração do fármaco permite avaliar a integridade do eixo.
Resultados esperados:
• Animais saudáveis: ocorre supressão adequada do cortisol
• Animais com HAC: a supressão é inadequada ou ausente
3. Protocolo do exame
O protocolo clássico do LDDST inclui:
Etapa 1: Avaliação clínica e exames laboratoriais compatíveis com suspeita de Cushing
Etapa 2: Coleta de cortisol basal (T0)
Etapa 3: Administração de dexametasona 0,01 mg/kg IV
Etapa 4: Coletas subsequentes de cortisol em: 4 horas e 8 horas
4. Interpretação considerando analisadores modernos
A dosagem de cortisol pode ser realizada por métodos laboratoriais automatizados, incluindo analisadores que utilizam imunoensaio de fluorescência (FIA), como o Vet Chroma. Esse equipamento apresenta faixa de detecção de 1,09 a 28,99 μg/dL, permitindo avaliar níveis de cortisol antes e após a administração da dexametasona. O protocolo clássico considera supressão adequada quando o cortisol é inferior a 1,0 μg/dL. Como o limite inferior do equipamento é 1,09 μg/dL, valores próximos desse limite devem ser interpretados com cautela, considerando o contexto clínico do paciente.
Interpretação prática do resultado (8 horas)
Cortisol ≤1,09 μg/dL: Supressão adequada – eixo HHA funcional
Cortisol 1,1–1,5 μg/dL: Resultado inconclusivo
Cortisol >1,5 μg/dL: Compatível com hiperadrenocorticismo
Nos casos inconclusivos, fatores como estresse, doenças não adrenais ou variação biológica podem interferir no resultado.
Nesses pacientes, recomenda-se repetir o teste após algumas semanas ou utilizar testes complementares.
5. Diferenciação entre HAC pituitário e tumor adrenal
O padrão de supressão observado nas amostras de 4 e 8 horas pode fornecer pistas sobre a origem da doença.
HAC pituitário-dependente (PDH)
Alguns adenomas hipofisários mantêm sensibilidade parcial ao feedback negativo, podendo ocorrer supressão transitória.
Padrões sugestivos incluem:
• cortisol em 4h <1,5 μg/dL, mas 8h >1,5 μg/dL
• queda superior a 50% em relação ao basal, mesmo permanecendo acima de 1,5 μg/dL
Padrão típico no LDDST – Tumor adrenal
Estudos clássicos de endocrinologia veterinária mostram que:
• Aproximadamente 90–100% dos cães com tumor adrenal não apresentam supressão no LDDST.
• Apenas 0–10% podem apresentar algum grau de supressão parcial, o que é considerado incomum.
Isso ocorre porque o tumor adrenal secreta cortisol de forma autônoma, independente do controle pelo ACTH hipofisário. Assim, mesmo com a administração da dexametasona e a supressão da secreção de ACTH, o tumor continua produzindo cortisol. Geralmente observa-se:
• Cortisol 4h: elevado (>1,5 μg/dL)
• Cortisol 8h: elevado (>1,5 μg/dL)
• Sem redução >50% em relação ao basal
Esse padrão indica ausência de feedback negativo funcional, sugerindo produção autônoma de cortisol.
6. Importância do teste no acompanhamento de hipocortisolismo
Embora o LDDST seja tradicionalmente utilizado para diagnóstico de hiperadrenocorticismo, ele também pode contribuir na avaliação funcional do eixo HHA em pacientes com hipocortisolismo iatrogênico ou durante o acompanhamento terapêutico.
O hipocortisolismo iatrogênico pode ocorrer em situações como:
• tratamento do HAC com trilostano ou mitotano
• retirada abrupta de glicocorticoides após uso prolongado
• supressão prolongada do eixo HHA por terapias esteroidais
Nesses pacientes, o acompanhamento do eixo adrenal é importante para evitar supressão excessiva da produção de cortisol, que pode resultar em sinais clínicos semelhantes à doença de Addison, como:
• letargia
• anorexia
• vômitos
• fraqueza
• hipotensão
• distúrbios eletrolíticos
Testes dinâmicos que avaliem a resposta do eixo adrenal ajudam a determinar se a produção endógena de cortisol está se recuperando adequadamente e orientam ajustes terapêuticos. Assim, embora o teste de estímulo com ACTH seja frequentemente utilizado no monitoramento terapêutico, a avaliação da resposta do eixo HHA por testes de supressão também pode fornecer informações complementares sobre a capacidade regulatória do sistema endócrino.
7. Benefícios práticos de analisadores rápidos como o VetChroma na rotina clínica:
Equipamentos baseados em imunoensaio fluorescência oferecem vantagens importantes na rotina veterinária:
• alta reprodutibilidade de resultados
• baixo volume de amostra (aproximadamente 10 a 50μL)
• tempo rápido de análise (cerca de 15 minutos)
• maior eficiência no fluxo diagnóstico
Essas características são especialmente úteis em protocolos dinâmicos como o LDDST, nos quais múltiplas amostras precisam ser analisadas em curto intervalo de tempo.
O Teste de Supressão com Baixa Dose de Dexametasona permanece como uma das ferramentas mais sensíveis para o diagnóstico do hiperadrenocorticismo em cães. Além disso, a compreensão da dinâmica do eixo hipotálamo–hipófise–adrenal permite utilizar esses testes também como apoio no acompanhamento da função adrenal durante terapias que afetam a produção de cortisol. Como em qualquer exame endócrino, os resultados devem sempre ser interpretados em conjunto com a história clínica, exame físico e outros achados laboratoriais, garantindo maior precisão diagnóstica e melhor manejo dos pacientes.
8. Referências
Behrend EN, Kooistra HS, Nelson R, Reusch CE, Scott-Moncrieff JC. Diagnosis of Spontaneous Canine
Hyperadrenocorticism: 2013. ACVIM Consensus Statement (Small Animal). J Vet Intern Med 2013;27:1292–1304.
https://doi.org/10.1111/jvim.12192
Feldman EC, Nelson RW, Reusch CE, Scott-Moncrieff JCR. Canine and Feline Endocrinology. 5ª ed. Elsevier, 2015.
Ettinger SJ, Feldman EC, Côté E. Textbook of Veterinary Internal Medicine. 9ª ed. Elsevier, 2024.
Peterson ME. Diagnóstico de hiperadrenocorticismo em cães. Clínica Pequena Animação Prática. 2007 Feb;22(1):2-11.
doi: 10.1053/j.ctsap.2007.02.007. PMID: 17542191.
Por: Dra. Mirleide de Araújo Cáo
Pós-doutoranda em Doenças Infecciosas – UFES
Doutora em Doenças Infecciosas – UFES
Mestre em Diagnóstico Clínico-Cirúrgico com ênfase em Hematologia e Imunologia – Patologia Clínica – UFES
Pós-graduada em Oncologia – Unyleya
Aperfeiçoamento em Oncologia Clínica de Pequenos Animais – UNESP
Aperfeiçoamento em Cirurgia oncológica e reconstrutiva em andamento – UNESP
Formação em Perícia
Capacitação em Pesquisa Clínica Veterinária – Invittare
Curso Intermediário de Pesquisa Clínica – HAOC – PROAD-SUS